UM CENÁRIO INTERDISCIPLINAR DAS TERAPIAS BASEADAS EM EVIDÊNCIAS

 

Resenha do livro “Transtornos psicológicos: Terapias baseadas em evidências”. 1º Edição. Organizado por Paulo R. Abreu e Juliana H. S. S. Abreu. Santana de Parnaíba: Editora Manole (2021)

 

Paulo Roberto Abreu

Instituto de Análise do Comportamento de Curitiba

 

A prática baseada em evidências em psicologia é um processo de tomada de decisão clínica a partir da integração da melhor evidência disponível com a perícia clínica de acordo com as características, cultura e preferências do paciente (American Psychological Association, 2006). “Transtornos Psicológicos: Terapias Baseadas em Evidências” acompanha o crescente interesse das pesquisas de resultados e de processos em psicoterapia. O livro, com 227 páginas distribuídas ao longo de 15 capítulos, foi diagramado e recentemente publicado pela editora Manole.

O livro aborda as terapias comportamentais contextuais como a Ativação Comportamental (BA), a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), a Terapia Comportamental Dialética (DBT), a Terapia Comportamental Integrativa de Casal (IBCT) e a Terapia Focada na Compaixão (TFC). Traz também capítulos instigantes sobre diferentes terapias comportamentais de exposição e terapias cognitivo-comportamentais aplicadas aos mais diversos transtornos.

São discutidas quais intervenções pontuais do terapeuta, orientadas por manuais e protocolos, são responsáveis pelas mudanças críticas do comportamento do paciente. Participaram dessa obra cientistas da Espanha, Brasil, Venezuela, Argentina e Paraguai.

Já na Introdução os organizadores Paulo Abreu e Juliana Abreu fazem um ligeiro resumo das três gerações de pesquisas de resultados em psicoterapia. No cenário descrito é possível observar os contextos político-econômicos que deram combustível para o desenvolvimento das características próprias de produção de conhecimento de cada uma das agendas de pesquisa. O passeio histórico acontece desde a hipótese original dos fatores comuns versus fatores específicos para os resultados da psicoterapia (ainda não plenamente superado) até o encontro com os ensaios clínicos randomizados e metanálises modernas.

No capítulo um Paulo Abreu e Juliana Abreu abrem o livro abordando o Tratamento de Ativação Comportamental BA-IACC. Os autores explicam o que, na sua percepção, foi o avanço da concepção comportamental de depressão trazida pela BA-IACC. Por fim discutem também alguns problemas advindos do movimento de contracultura científica - intitulado terapia baseada em processos - para a evolução da Ativação Comportamental no tratamento dos transtornos depressivos.

Marcelo Panza traz uma instigante síntese etiológica do transtorno depressivo maior. O autor argumenta como as variáveis neuroquímicas, neuroanatômicas-funcionais, endócrinas e imunológicas, entrariam na equação da concepção comportamental, com foco nas interações do organismo com um ambiente carregado de estimulação aversiva.

Luis Aguayo coloca os problemas de self enquanto problemas transdiagnósticos, ou seja característicos de muitos transtornos psicológicos. A partir da perspectiva da FAP o autor cria uma taxonomia funcionalmente orientada para outros subtipos de problemas de self, tendo o cuidado de descrever as implicações para a clínica comportamental. Aos já conhecidos Self Inseguro e Self Instável propostos originalmente no livro da FAP, o autor acrescentou o Self Ambivalente - daquelas pessoas que mudam rapidamente com as pessoas ao seu redor, mostram vários tipos de personalidade, e rapidamente alternam entre estados emocionais - e o Self Fraco - daquelas pessoas com histórico de punição permanente, com graves déficits de habilidades sociais, e que também evitam relacionamentos íntimos e nunca expressam suas emoções.

Claudia Oshiro e Alan Aranha discutem o modelo da FAP. Segundo os autores, no decorrer dos 30 anos do desenvolvimento dessa psicoterapia, notou-se um afastamento dos terapeutas dos fundamentos originais da FAP, uma vez que o modelo foi se tornando um conjunto de regras de atendimento e, muitas vezes, falhando em ensinar o terapeuta a ficar sob controle das contingências em sessão e sob controle do comportamento do cliente. Os autores listam três situações que demonstram a necessidade de revisão do ensino e o treino de terapeutas: (1) os CRBs1 não incluem todos os comportamentos-problema do cliente, (2) as cinco regras não são protocolos a serem seguidos, e (3) as cinco regras são conceituadas funcionalmente, e não topograficamente.

Link para compra na Manole

 

Marcelo Panza propõe um protocolo para o tratamento do Transtorno do Pânico, desenhado a partir da seleção de componentes que superam o efeito placebo. Os componentes promovem o aumento da exposição interoceptiva a partir da sua combinação e de sua maior intensidade e duração, e coincidentemente, a aplicação dos princípios da aprendizagem inibitória. O protocolo consiste de até 13 sessões de aproximadamente 60 minutos.

Marina Galimberti descreve o transtorno de ansiedade generalizada, seus critérios diagnósticos, características clínicas e tratamentos. Por fim a autora inclui uma descrição da terapia cognitivo-comportamental, com as contribuições da Terapia Racional Emotiva Comportamental e do mindfulness.

Taisa Grün e Jorge Landaeta apresentam dois protocolos da TFC, um para intervenção individual de 8 sessões e outro para intervenção em grupo de 11 sessões para abordar a autocrítica em clientes que fazem terapia. Essa terapia foi originalmente desenvolvida como uma abordagem transdiagnóstica para pessoas com altos níveis de autocrítica e vergonha.

Em seu capítulo Mara Lins dá ênfase a primeira etapa da IBCT, a saber, a avaliação e a formulação do caso. Para isto introduz o conceito da IBCT de “tema”, que envolve os processos de polarização e a armadilha mútua. O tema pode ser o desencadeante formado por um conjunto de estímulos que faz com que o casal comece a se posicionar cada um em sua perspectiva, e que por isso desencadeia processos de polarização. O capítulo ensina a realizar a formulação inicial de caso, a partir da análise do tema, utilizando para isso perguntas estratégicas e instrumentos.

Olivia Gamarra descreve o transtorno de ansiedade social, com suas manifestações clínicas predominantes, etiologia e manutenção do quadro clínico. A autora apresenta descrição dos mecanismos intervenientes, baseados em investigação de processos básicos dentro das tradições comportamentais e cognitivas, e os tratamentos com seus componentes que demonstraram maior eficácia. São propostas intervenções atuais potenciais para melhora de efetividade, com exploração da técnica de aprendizagem inibitória na maximização da exposição.

Em seu capítulo Eduarda Freitas , Leopoldo Barbosa e Carmem Neufeld apresentam uma caracterização dos principais problemas apresentados por idosos, desde os desafios médico-psicológicos da idade, até os problemas advindos do preconceito cultural que, infelizmente, trazem reflexos na assistência profissional a que essa população tem disponível.

Isabela Scotton e Carmem Neufeld descrevem aspectos processuais, técnicos e competências do terapeuta na aplicação da terapia cognitivo-comportamental de grupo (TCCG). Além da reconhecida eficiência clínica, a eficácia da TCCG já foi confirmada em pesquisas que têm sido realizadas desde a década de 1970, sendo que o tratamento grupal demonstrou resultados equivalentes e, para algumas demandas até mesmo superiores à intervenção individual.

Karen Szupszynski e Flavia Mansano apresentam evidências de efetividade no tratamento do uso de drogas a partir da Terapia Cognitivo Comportamental de reestruturação Cognitiva, da Terapia do Esquema, DBT, Mindfulness e ainda das Intervenções Online direcionadas para dependência química.

Ana de Farias e Rayana Lima descrevem a aplicação da ACT com uma cliente com dificuldades de aceitação da dor crônica e da insônia. A ACT é uma terapia com forte suporte de pesquisa no tratamento da dor crônica de acordo com a APA. Segundo sua perspectiva teórica, nos quadros de dor crônica é comum um padrão comportamental de esquiva experiencial com função de evitação de eventos privados aversivos. A dor crônica pode ser uma fonte de imenso sofrimento e incapacidade no ser humano.

Em seu capítulo Wilson Melo e Ramiro Catelan ilustram a aplicação da DBT a partir do estudo de caso de um cliente com histórico de comportamentos autolesivos e tentativas de suicídio, sentimento crônico de vazio e dificuldades intensas de relacionamento interpessoal. A DBT foi inicialmente desenvolvida para o tratamento do transtorno da personalidade borderline e posteriormente estendida para outros transtornos e desordens do comportamento.

Por fim, Cristiane Gebara e Tito Neto apresentam uma revisão detalhada do tratamento de exposição virtual para a fobia social. Os cenários apresentados podem ser diversos, como caminhar na rua, abordar pessoas na rua, a entrada em uma festa, o diálogo em uma festa, a recepção de convidados e o discurso na festa. os autores argumentam que as vantagens da exposição virtual é a gradação controlada e a apresentação repetida (em looping), o que maximiza a exposição para o paciente.

Em síntese o livro descreve as melhores práticas de terapia atuais. Seu projeto priorizou as contribuições originais, conceituais ou clínicas, alinhadas com a evolução das terapias comportamentais e cognitivas.

REFERÊNCIAS

Abreu, P. R., & Abreu, J. H. S. S. (Eds.). (2021). Transtornos psicológicos: Terapias baseadas em evidências. Manole

American Psychological Association. (2006). Evidence-based practice in psychology: APA presidential task force on evidence-based practice. American Psychologist, 61(4), 271-285. https://doi.org/10.1037/0003-066X.61.4.271

SOBRE O AUTOR DA RESENHA

Paulo R. Abreu é coordenador do Instituto de Análise do Comportamento de Curitiba (IACC). Autor do livro Ativação Comportamental na Depressão (Abreu & Abreu, 2020) e organizador do livro Transtornos Psicológicos: Terapias Baseadas em Evidências (Abreu & Abreu, 2021). Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Psicólogo clínico e professor de cursos do IACC, em pós-graduação, de formação e treinamentos. Behavioral Activation Trainner. Foi editor-chefe da Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Autor de capítulos, artigos nacionais e internacionais sobre depressão, terapias comportamentais contextuais e análise do comportamento.

LANÇAMENTO OFICIAL DO LIVRO NO IV EITCCP

DIA 18-09-21 AS 15:30 - DURANTE O INTERVALO 

QUER ASSISTIR NOSSAS LIVES SOBRE CADA UM DOS CAPÍTULOS DO LIVRO? ACOMPANHE O PROGRAMA "IACC SÉRIES"

https://www.youtube.com/c/InstitutodeAnálisedoComportamentodeCuritiba

Desenvolvido por Paulo Abreu